Mostrando postagens com marcador Egito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Egito. Mostrar todas as postagens

28/06/2017

Egito Antigo: O pão e a fermentação



Há estudos que apontam que os pães começaram a ser produzidos há aproximadamente seis mil anos, na região da Mesopotâmia, onde hoje está situado o Iraque, e foram difundidos por várias civilizações da Antiguidade. Esse pão era resultado de uma mistura seca, dura e amarga feita à base de farinha de trigo. A origem do pão está intimamente ligada ao processo de sedentarização do homem, quando se iniciou o desenvolvimento da agricultura, sendo o trigo um dos cereais resultantes dessa atividade produtiva.




Antes de o homem aprender a produzir fermento, eles guardavam um pouco da massa crua de cada batelada para misturar com a seguinte. Entre as bateladas, a massa azedava, ou fermentava, por ação de leveduras do ar. Quando  misturadas com massa fresca, causava o crescimento de toda a massa. Massa fermentada ainda é utilizada hoje em dia para a produção do que é chamado pão de massa azeda.




 Atribui-se aos antigos egípcios o descobrimento do processo de fermentação; eles usavam este princípio por volta do ano 2600 AC. Os egípcios forma provavelmente os primeiros a considerar a panificação como uma forma de arte..  Alguns baixo-relevos encontrados em templos egípcios mostravam que eles já sabiam cultivar cereais desde 6000 AC. Os egípcios eram grande bebedores de cerveja e aplicaram seus conhecimentos sobre o processo de fermentação para a elaboração do pão. Os gregos chamavam os egípcios de "arthophagoi", ou "comedores de pão". O primeiro testemunho escrito vem de Heródoto que, em 450 AC, escreveu "todos estão temerosos de alimentos fermentados, mas os egípcios fazem uma massa de pão fermentada".A produção de pão teve o seu maior desenvolvimento no Antigo Egito, não só devido às grandes produções de trigo nas férteis margens do Nilo, como pelos enormes progressos na produção e peneiração da farinha, na preparação da massa que amassavam com os pés, e na fermentação das massas com o mosto da preparação do vinho e da cerveja, e na cozedura sobre pedra quente ou em vasos de cerâmica colocados no meio das brasas.



Pão Cónico
 Coleção do Museu de Agricultura do Cairo

   Encontramos já no Antigo Egito corporações de Padeiros, claramente identificadas. O padeiro real gozava de regalias especiais conferidas pelos Faraós, que, acreditando na vida eterna, se faziam acompanhar de pão nos seus sarcófagos. Mas, a sacralidade do pão não se resumia apenas a este fim. O pão era uma oferta privilegiada aos deuses. Sabe-se que Ramsés III ofereceu em vida mais de 200000 bolachas e mais de 6000 pães aos templos.


Pão Redondo
Coleção do Museu de Agricultura do Cairo



Os egípcios consumiam cerca de 30 variedades de pão no formato redondo, oval, triangular, cônico, sendo que este era dedicado aos deuses e, provavelmente, recebia sementes de cominhos. Havia também um pão de forma a servir de prato circundado de pãezinhos de diferentes tipos com que acompanhavam a refeição quando se comia deitado e com que limpavam os dedos na refeição tomada à mão. Havia, igualmente, um pão preparado com a farinha de lótus, misturando-se água e leite. Essa massa poderia ser enriquecida com ovos, mel, frutas como o figo e uma pasta de tâmaras e mel.





Além de criar variações alterando ingredientes, os egípcios também foram os primeiros a construir fornos especiais para cozer o pão. Eram estruturas de barro em forma de colmeia ou de barril, com dois compartimentos, um em cima e outro em baixo. No compartimento inferior ficava o fogo, cujo calor, contido e absorvido pelas paredes do forno, subia gradualmente, garantindo uma temperatura elevada e estável. Os pães eram colocados no compartimento superior, que permanecia fechado durante o cozimento. O calor intenso irradiado pelas espessas paredes de argila fazia a massa «subir» quase instantaneamente, estimulando a fermentação e transformando em vapor a umidade da massa. Ao umedecer a atmosfera, o vapor retardava a formação da crosta, permitindo que o pão dilatasse ao máximo. Por fim, à medida que o pão cozia e o ar dentro do forno ia perdendo a umidade, formava-se uma crosta dourada e crocante, ao mesmo tempo que se completava o cozimento interno.



O processo de fermentação foi uma técnica desenvolvida pelos egípcios por volta de 4000 a.C., dando ao pão o aspecto pelo qual o conhecemos hoje em dia. Antes de o homem aprender a produzir fermento, eles guardavam um pouco da massa crua de cada batelada para misturar com a seguinte. Entre as bateladas, a massa azedava, ou fermentava, por ação de leveduras do ar. Quando  misturadas com massa fresca, causava o crescimento de toda a massa. Massa fermentada ainda é utilizada hoje em dia para a produção do que é chamado pão de massa azeda.  Por ser um produto extremamente necessário à alimentação, ele foi usado durante muitos séculos também como moeda. Há indícios de que os faraós o utilizavam como meio de pagamento para serviços realizados.



Padarias






Os gregos, que atribuíam a origem do pão aos deuses deram a ele um caráter sagrado. Nós devemos aos gregos a instituição das padarias como estabelecimentos comerciais públicos, e eles ensinaram isto aos romanos. A grande expansão do pão em Roma causou o nascimento da primeira associação oficial de panificadores. Seus membros gozavam de um status muito privilegiado. Eles eram livres de alguns deveres sociais e isentos de muitos impostos. A panificação tornou-se tão prestigiosa durante o Império Romano, que era considerada no mesmo nível que outras artes, como escultura, arquitetura ou literatura. Até politicamente, as classes dominantes usavam pão para satisfazer o povo e fazê-los esquecer os problemas econômicos oriundos da expansão do Império.
As legiões romanas levaram o pão para a Península Ibérica, apesar de várias referências afirmarem que o processo de panificação já era conhecido por lá, especialmente sobre fermentação pois eles usavam a espuma da cerveja como fermento, o que produzia um pão mais leve e esponjoso do que o dos romanos, que ainda usavam o resto de massa velhas para a fermentação. Os romanos melhoraram o processo de moagem, e como resultado disto foram os primeiros a produzir pão branco. Antes disto, somente fazia-se pães escuros, de grãos integrais. Por volta de 100 a.C., Roma possuía mais de 200 padarias comerciais. Uma escola para padeiros foi criada pelos romanos no século I.
A medida que o pão foi crescendo de importância na vida das pessoas ele começou a fazer parte de suas tradições religiosas. Por exemplo, a Bíblia relata que os antigos hebreus faziam matzota antes da fuga do Egito. Os judeus comem este tipo de pão durante o festival de Passover. A Igreja Católica prega que, durante a  celebração da Missa, o padre transforma o pão no corpo de Jesus Cristo.
Durante a Idade Média, o pão era feito artesanalmente no ambiente doméstico pelos camponeses. A limitação agrícola e técnica que tinha essa classe social não possibilitava a produção de pães fermentados, o que resultava em um produto de menor qualidade. Situação diferente era a vivenciada pelos senhores feudais, que consumiam pães de maior qualidade produzidos nas padarias dos castelos.
Com a Revolução Industrial, a produção do pão ganhou um forte impulso, seja no aumento de terras destinadas ao plantio do trigo, seja no desenvolvimento de técnicas de moagem do cereal nos moinhos, passando dos moinhos de tração animal ou humana aos moinhos a vapor, que começaram a surgir em 1784. A grande produção que se verificou se destinava a alimentar principalmente a classe operária que crescia nas cidades industriais, criando condições para uma produção em larga escala.
O pão chegou a ser inclusive um dos motivos de eclosão da Revolução Francesa. Sendo base da alimentação da população francesa há séculos, a severa queda na produção do cereal tornou o alimento caro e escasso. Este foi um dos motivos que levaram à revolta da população francesa e à queda do rei Luís XVI.



Ao longo dos séculos, com o aumento das viagens e trocas entre os países, aumentou proporcionalmente as variedades de pães. Mais e mais pessoas em todo lugar aprenderam sobre os diferentes tipos de pão que são feitas nas áreas mais afastadas do mundo. Apesar desse desenvolvimento, uma boa parcela da população mundial ainda não tem acesso a esse alimento cotidianamente.


                                       Jean Hélion - Les Pains, 1951






Atividade de Férias - 6º. Ano
"Fermento Biológico"


Este fermento natural também é conhecido na Itália como pasta madre, na França como levain, aqui no Brasil ele recebe outros nomes além desses,como “pão de Cristo”, chef, mãe, sourdogh starter,sendo levain, o mais popular em São Paulo. O Levain é um fermento natural e consiste basicamente de uma massa obtida pela mistura de farinha e água. Ao ser exposta, é contaminada por micro-organismos dispersos no ambiente que devem encontrar nessa massa um ótimo meio de crescimento. Isso ocasiona uma série de fermentações não controláveis, diferentes de quando utilizamos o fermento biológico industrializado.
Essas fermentações produzem gás carbônico e alguns ácidos, sendo os mais comuns o acético e o lático. Depois do período de “incubação” essa massa tem condições de servir como fermento, ou seja, como agente de crescimento para outras massas. A utilização do fermento natural embora se dê em casos específicos (visto que agrega um sabor ácido) pode ser feita em qualquer tipo de pão.



O Sourdough de San Francisco tem sabor especial devido à bactéria local chamada de Lactobacillus Sanfrancisco.
Um pão feito com levain é nutricionalmente mais interessante que um pão feito com fermento biológico comum.
Vantagens:
  • Melhor digestão;
  • Melhor absorção de ingredientes;
  • A validade após assado é maior;
  • Ajuda a equilibrar flora intestinal;
  • Auxilia as pessoas que sofrem de intolerância a lactose
O gosto do pão feito com levain costuma ser bastante peculiar, mais ácido e muito mais aromático.

Regras gerais
1.    Sempre use um recipiente de vidro ou esmalte.
2.    Sempre deixe descansar em um lugar que não fique vibrando.
3.    Não coloque no sol.
4.    Não use água da torneira, ela tem cloro e pode acabar matando os microorganismos. Use água mineral.


     Ingredientes:

     Água mineral
     Farinha de trigo integral ou orgânica




1 -Fermento caseiro - passo a passo



2 - Pão com fermento biológico caseiro



3 - Pizza com fermento biológico caseiro





4 - Pão caseiro recheado





Como alimento o fermento ?
Ingredientes
3 partes de farinha de trigo integral orgânica
3 partes de água

Para alimentar o fermento é bem fácil, basta colocar os ingredientes dentro do recipiente que ele está e mexer. Se você achar que tem pouco fermento aumente a quantidade de ingredientes. Depois é só esperar crescer e voltar a guardar na geladeira.

Canal no Youtube com mais receitas e os videos originais: 



02/06/2016

Egito e o "whitewashing"


“uma dádiva do Nilo” (Herodoto)



Literalmente um oásis; faixa de terra fertilizada pelas cheias periódicas correspondia 20 km de largura, tornando-se maior apenas ao Norte (baixo Egito), quando o rio forma um delta de 150 km.

 Divisão Histórica
Quando falamos em “Egito antigo”, estamos nos referindo aproximadamente  4000 a.C. ao momento em que ele foi dominado pelos romanos, no século I a.C.
Tal periodização é dividida para estudo em:

  •  Antigo – Capital Mênfis – 2052 a.C. – Agricultura e pirâmides
  •  Médio – Capital Tebas – 2052 a 1570 a.C. – Centralização
  •  Novo Império – Expulsão dos Hicsos/ocupação “preventiva” (Canaã e Síria)

O EGITO É ÁFRICA!

Whitewashing é a união das palavras em inglês white (branco) + wash (limpeza) e tem muitos significados, como “produto que deixa mais branco” ou “absolver da culpa”. E, mais recentemente, foi colocado um novo significado na palavra: “fazer limpeza étnica em um personagem fictício ou histórico, transformando-o em uma pessoa branca”.



No século XX as produções cinematográficas para o cinema, televisão, internet, e até mesmo representações teatrais, circenses e em outras mídias como a literatura, quadrinhos, videogames, desenhos, pinturas, esculturas, etc., tendem a representar o povo egípcio como tendo sido uma população predominantemente branca. Tal tendência não começou no século XX, mas foi durante ele que essa referência imagética de um "Egito branco" prevaleceu na cultura e na mentalidade contemporânea. E mesmo no século XXI, ainda vemos filmes, novelas, desenhos, etc., retratando os faraós sempre brancos, a nobreza egípcia sempre branca, o grosso da população sendo branca, e quando há negros e pardos, estes geralmente são camponeses ou escravos.


No século XX as produções cinematográficas para o cinema, televisão, internet, e até mesmo representações teatrais, circenses e em outras mídias como a literatura, quadrinhos, videogames, desenhos, pinturas, esculturas, etc., tendem a representar o povo egípcio como tendo sido uma população predominantemente branca. Tal tendência não começou no século XX, mas foi durante ele que essa referência imagética de um "Egito branco" prevaleceu na cultura e na mentalidade contemporânea. E mesmo no século XXI, ainda vemos filmes, novelas, desenhos, etc., retratando os faraós sempre brancos, a nobreza egípcia sempre branca, o grosso da população sendo branca, e quando há negros e pardos, estes geralmente são camponeses ou escravos.


Descrições de estrangeiros:

O historiador grego Heródoto de Halicarnasso (c. 480 - c. 425 a.C), em seu livro Histórias, em alguns momentos menciona que havia gente negra no Egito. Em uma das passagens de seu livro, Heródoto fala sobre o povo de Cólquida, região situada na Ásia, a costa do Mar Negro, no que hoje é território da Geórgia. De acordo com ele, os colquidianos se diziam ser descendentes dos egípcios; Heródoto mostra-se incrédulo quanto a isso, no entanto, diz que os colquidianos eram negros e de cabelo crespo como os egípcios, embora ele saliente que havia outros povos com estas mesmas características, o que significava que necessariamente os colquidianos não seriam descendentes dos egípcios



Pintura num mural retratando um homem e uma mulher participando da colheita. Percebe-se que ambos têm a pele parda e o cabelo crespo.

Segundo o tratado grego Fisionomia, supostamente atribuído ao filósofo Aristóteles (384-322 a.C), nesta obra, o autor em questão diz que os egípcios e etíopes eram negros (DIOP, 2010, p. 13). O escritor grego Luciano de Samósata (c. 125-190) em seu livro Navegações, menciona o diálogo entre dois homens chamados Licino e Timolaus; na ocasião os dois comentam a respeito de um homem negro que haviam visto, o qual usava o cabelo longo e trançado. Timolaus diz que aquele estilo de cabelo era comumente usado entre os egípcios, inclusive que eles eram negros. Já o geógrafo grego Estrabão (64-24 a.C) autor da volumosa obra Geografia, especificamente no livro 1, cap. 3, ele diz que os etíopes e os colquidianos, eram negros como os egípcios.



Os romanos durante sua República e Império conquistaram terras no norte da África, e ali se depararam com populações negras e pardas, diferente da ideia de que no Norte do continente africano, todos seus habitantes seriam na maioria brancos. Um exemplo interessante diz respeito aosNumidas, um povo de origem berbere, que era descrito como sendo mestiço. Os Numidas viviam naNumídia região hoje que compreende parte da Argélia. Nos relatos sobre sua aparência, nota-se que os escritores atestam que eles tinham a pele clara ou escura. Os romanos também viam os egípcios como um povo mestiço e não predominantemente branco. De acordo com a Bíblia Sagrada (Gênesis 10:6), Cam o caçula de Noé, teria tido quatro filhos inicialmente, chamados de Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã. Tais filhos dariam origem as populações do Oriente Médio e da África. Curiosamente o nome Mizraim era usado pelos hebreus para se referir ao Egito, Cuxe, se referia a Kush, um antigo reino na Núbia; Pute corresponderia a uma região hoje no Marrocos, e Canaã é a Palestina. O historiador hebreu Flávio Josefo detalha melhor a história dos descendentes de Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã dizendo como eles se espalharam da Mesopotâmia ao Marrocos, da Síria à Arábia, da Palestina à Etiópia (JOSEFO, 2004, p. 21-22).
Por sua vez, Cam significa "queimado" em hebraico, o que é interpretado por alguns estudiosos como sendo uma alusão a cor da pele escura. De fato, Heródoto (2006, p. 180-181) menciona que haveria regiões na África que o sol era tão intenso que os homens tinham a pele escura, pois ela era queimada. Inclusive os gregos antigos possuíam o termo para se referir a tal condição, algo que será visto adiante no texto.
Embora não podemos garantir veracidade ao relato bíblico, porém sabemos que o encontro entre tais povos ocorria, de fato, o Egito foi terra de passagem de vários povos ao longo de milênios, daí ser visto como uma nação miscigenada. Por outro lado, atribuir-se que todos os supostos descendentes de Cam seriam negros e pardos, é um problema, pois a área do Oriente Médio no qual seus descendentes teriam se estabelecido, não possuem apenas populações negras e pardas, mas possuem populações brancas e amarelas.
Para Jean Vercoutter (1980, p. 26-27), a população egípcia era miscigenada, no entanto, era puramente de origem africana, ou seja, o povo egípcio ele era naturalmente oriundo da África, embora não se saiba de onde eles vieram, provavelmente de terras do sul, migrando até a região do Nilo. Todavia, devido ao contanto com as terras vizinhas, elementos brancos, pardos, amarelos e negros se misturaram para formar o povo egípcio. O problema da opinião de Vercoutter é que ele não dava atenção a essa miscigenação, renegando a contribuição cultural de outros povos os quais habitaram e fundaram dinastias faraônicas como os hicsos e os núbios. Na Idade Média e no começo da Idade Moderna, a palavra egípcio estava associada em alguns países europeus com o sentido de se referir aos ciganos e a pessoas de pele escura. No romance gótico O Corcunda de Notre- Dame (1831), embora seja uma obra de ficção, ainda assim, como em outros livros de Victor Hugo, o autor fazia uso de referências históricas para conceder maior verossimilhança as suas narrativas.
Menciono em particular esse livro pelo fato de que a cigana Esmeralda é várias vezes chamada de "egípcia" (gipsy em inglês, gitan em francês). As palavras gipsy e gitan são contrações da palavra egyptian, ou em português, egípcio. Neste caso, no medievo e na modernidade, "egípcio" era sinônimo de cigano em alguns países. E ainda hoje o termos gipsy, gitan, gitano, etc., são usados para identificar os ciganos.
Na obra, Esmeralda é descrita como uma bela mulher de dezesseis anos, tendo longos cabelos negros, olhos castanhos e pele escura. Embora Esmeralda fosse uma francesa de nascença, mas devido a ser uma cigana e ter a pele mais escura, era considerada uma estrangeira, uma filha da Boêmia ou do Egito, locais que o imaginário europeu da época creditava serem a terra de origem dos ciganos. Além disso, muitos ciganos franceses naquele tempo era descritos como sendo pessoas mestiças, sendo brancos ou pardos. De fato, a relação de ciganos com o Egito é um mal entendido, pois não se sabe ao certo de onde vieram os ciganos, pois pelo fato deles terem se espalhados por três continentes, traçar suas origens é algo bastante difícil. No entanto, a referência a cor da pele não está errada.



Questão etimológica

Primeiramente é preciso dizer que o nome Egito, não é um nome de origem egípcia, mas sim de origem grega, advindo de Aígyptos, palavra essa que significava "templo dedicado ao deus Ptah", sendo que Aígyptos seria uma variação de Ha-k-Ptah. Por sua vez, os romanos latinizaram o termo grego para Aegiptos. Ptah foi um importante deus associado a cidade Mênfis, uma das capitais do país.
Nota-se que o nome Egito é de origem grega, no entanto nada tem de referência a cor daquela população, porém, quando passamos para outro termo também de origem grega, surge uma certa proximidade.
A palavra etíope vem do grego aithiops, que significava "aquele que tem o rosto queimado". Por sua vez os romanos latinizaram a palavra para aethiops. Assim quando colocamos lado a lado as palavras gregas aígyptos e aithiops, e, as palavras latinas aegiptos e aethiops, a grafia e a pronúncia são parecidas, talvez trata-se apenas de coincidência, no entanto, um fato é que a palavra etíope antes de ser utilizada para designar o habitante que nasce na Etiópia, era um termo genérico para se referir a qualquer africano negro. Sendo assim, em obras gregas e latinas, não era incomum encontrar o termo etíope para designar qualquer africano negro, independente de onde ele era oriundo.
Os árabes quando começaram a melhor explorar a África, eles passaram a designar as populações negras do Saara, através do termo as-sudan que significa "gente negra". O nome dos dois paísesSudão e Sudão do Sul vem do árabe bilad as-sudan "a terra dos negros". Antes dos árabes melhor conhecerem a África, eles ficaram restritos aos países que englobam o deserto do Saara e como a população ali era predominantemente negra, eles chamaram
aquelas terras de bilad as-sudan. Tal aspecto por si só desmente a ideia de que os africanos da região saariana fossem predominantemente brancos.



Estátua do faraó Mentuhotep II da XI Dinastia, tendo governado por volta de 2061-2010 a.C. A ideia de que todos os faraós eram brancos, isso é uma invenção midiática

Um dos nomes usados pelos antigos egípcios para se referir a sua nação,era Kemet, que significava "terra negra". Normalmente os historiadores
interpretam que o termo Kemet fosse uma referência as terras férteis situadas
ao longo das margens do Nilo. De fato, tal terra é de coloração mais escura,
devido a umidade e aos nutrientes ali presentes. Por outro lado, kemet era usado para se diferenciar as terras férteis das terras desérticas ou estéreis, chamadas de deshret "terra vermelha". Entretanto, existe um ponto peculiar no uso do termo kemet; os egípcios se autodenominavam em algumas épocas usando a expressão: remet-en-kemet que significava "o povo da terra negra" (SILLIOTTI,2006, P. 16).
Muitos historiadores preferem creditar que o uso de Kemet deve-se apenas a referência as terras férteis as margens do rio Nilo, mas alguns alegam que além dessa conotação, kemet também poderia ser uma alusão ao seu povo, algo como a "terra dos negros". Para respaldar isso vejamos a explicação do historiador e antropologista senegalês Cheikh Anta Diop.
“Os egípcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos: kmt, = “os negros” (literalmente). Esse e o termo mais forte existente na língua faraônica para indicar a cor preta; assim, e escrito com um hieróglifo representando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada, e não com escamas de crocodilo.
Essa palavra e a origem etimológica da conhecida raiz kamit, que proliferou na moderna literatura antropológica. Dela deriva, provavelmente, a raiz bíblica kam. Portanto foi necessário distorcer os fatos para fazer com que essa raiz atualmente signifique “branco” em egiptologia, enquanto, na língua-mãe faraônica de que nasceu, significava “preto-carvão”. Na língua egípcia, o coletivo se forma a partir de um adjetivo ou de um substantivo, colocado no feminino singular. Assim, kmt, do adjetivo = km = preto, significa rigorosamente “negros”,ou, pelo menos, “homens pretos”. O termo e um coletivo que descrevia, portanto, o conjunto do povo do Egito faraônico como um povo negro”. (DIOP, 2010, p. 21-22).



Baseado neste seu argumento, Diop defendia que o termo remet-en-kemet poderia significar "o povo da terra dos negros". Para ele, kmt era utilizado de duas formas: no sentido de cor, ou seja, aquelas pessoas se reconheciam como sendo negros, mas também kmt estaria ligado a uma ideia de identidade, ou seja, eles se reconheciam como habitantes de uma nação chamada Kemet. Para respaldar essa ideia de identidade, Diop (2010, p. 25) assinala que os egípcios chamavam os núbios de nahas. Lembrando que os núbios eram na sua maioria negros, mas os egípcios não usavam o termo kmt para se referir a eles.

Representações iconográficas

Existem um grande número de representações iconográficas, das quais algumas anteriormente apresentadas que apontam o fato dos egípcios serem pardos e negros, embora houvessem egípcios brancos. Todavia, vejamos mais algumas dessas representações, como a de baixo na qual retrata um homem pardo e uma mulher branca, ambos segurando vasos.
A ideia de que o Egito era uma nação branca por se localizar no norte da África não é totalmente verdadeira. De fato, a proximidade com o Mediterrâneo, que os conectava a Europa, e por sua vez com o Oriente Médio, que os ligava aos povos asiáticos brancos e amarelos, tornava o Egito um local de passagem e conversão de várias pessoas. Sendo assim ao longo da História, o Egito teve uma população mestiça. Hicsos, hititas, mitanes, hebreus, núbios, persas, gregos, romanos, fenícios, bizantinos, árabes, etc., viajaram ao Egito e ali se estabeleceram.



Quando vemos outras representações do faraó Akhenaton percebemos que ele era pardo e suas filhas também. No caso de Nefertiti pelo que se conhece de suas feições, ela seria branca ou parda, embora como dito, exista a dúvida quanto a suas origens, as quais poderiam ser asiáticas. Ainda assim, revela como o Egito era uma nação mestiça, ainda mais neste caso em particular, pois era comum os faraós casarem-se com suas irmãs para manter a linhagem-real, mas Nefertiti não era irmã de Akhenaton, e haja dúvidas se fosse alguma prima ou uma estrangeira completa. Todavia, além de Akhenaton e suas filhas serem pardas, seu famoso filho Tutancâmon também era pardo, diferente do que a mídia tenta passar de que se tratava de um homem branco. Alguns creditam que o busto abaixo seja uma representação do jovem faraó que morreu aos 19 anos.



 Tutancâmon assumiu o trono por volta de seus oito ou nove anos, casando-se com sua irmã Anakshunamum. Tanto ele quanto ela, eram pardos, e mesmo que tal busto não seja uma representação do faraó, existem outras representações dele e de sua esposa, que mostram a cor mais escura de suas peles.
Por fim, exponho a imagem de um dos faraós mais conhecidos, Ramsés II, terceiro faraó da XIX Dinastia. Ramsés II cognominado "o Grande" foi um guerreiro e conquistador, além de supostamente ser o "faraó do Êxodo". Nos anos 70 quando sua múmia foi levada para Paris, a fim de se estudada, alguns dos cientistas que trabalhavam na pesquisa, especialmente P. F. Ciccaldi ao analisar a pigmentação dos cabelos de Ramsés II, constatou que havia pigmentos de origem vermelha, ou seja, o faraó teria sido ruivo.
Ciccaldi publicou um artigo defendendo que o faraó Ramsés II, seu pai Seti I, e um de seus avós, todos seriam de linhagem ruiva, logo, seriam brancos. Todavia, mesmo os ruivos na Europa não são comuns, estando restritos ao Norte do continente. Além disso, hoje se sabe que existem povos negros que possuem naturalmente olhos azuis e cabelos louros, e em alguns casos, encontram-se negros e pardos que são ruivos naturais. O problema é como definir o fator que levou a tais pessoas nascerem ruivas. Teria sido alguma miscigenação de algum antepassado desconhecido? Ou uma mutação genética?
No caso de Ramsés, os cientistas concluíram que ele não seria ruivo como sugerido por Ciccaldi, provavelmente os testes que ele fez, foram contaminados com pigmentos encontrados na múmia, pois percebeu-se que os cabelos mesmo brancos, continham pigmentos de tinta. Os egípcios tinham o costume de pintar as perucas ou os próprios cabelos em alguns casos.
No caso de Ramsés, os cientistas concluíram que ele não seria ruivo como sugerido por Ciccaldi, provavelmente os testes que ele fez, foram contaminados com pigmentos encontrados na múmia, pois percebeu-se que os cabelos mesmo brancos, continham pigmentos de tinta. Os egípcios tinham o costume de pintar as perucas ou os próprios cabelos em alguns casos.
De qualquer forma, os cientistas hoje na maioria descartam uma ascendência ruiva para Ramsés II e seus antepassados, e apontam que ele fosse mestiço, talvez sendo branco ou pardo, mas não negro como sugeriu Cheikh Anta Diop. Todavia, em 90% das representações midiáticas de Ramsés II, ele é retratado como sendo branco, mas quando vemos algumas representações da sua época, elas nos revelam outro ponto de vista.


Referências Bibliográficas:
DIOP, Cheikh Anta. A origem dos antigos egípcios. In: MOKHTAR, Gamal
(ed.). História Geral da África II: África Antiga. 2a ed. Brasília, UNESCO, 2010.
8v.
JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus: de Abraão à queda de Jerusalém.
Tradução de Vicente Pedroso. 8a ed. Rio de Janeiro, CBAD, 2004.
HERÓDOTO. Histórias. Tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro, W. M.
Jackson Inc., 1950 (2006).
HUGO, Victor. O Corcunda de Notre-Dame. Tradução Jorge Bastos. Rio de
Janeiro, Zahar, 2015.
SILLIOTI, Alberto. Egito. Barcelona, Ediciones Folio, S. A., 2006.
VERCOUTTER, Jean. O Egito Antigo. Tradução de Francisco G. Heidemann.
2a ed. São Paulo, Difel, 1980


Deuses e Reis




Exodus é uma adaptação da história bíblica do Êxodo, segundo livro do Antigo Testamento. O filme narra a vida do profeta Moisés (Christian Bale), nascido entre os hebreus na época em que o faraó ordenava que todos os homens hebreus fossem afogados. Moisés é resgatado pela irmã do faraó e criado na família real. Quando se torna adulto, Moisés recebe ordens de Deus para ir ao Egito, na intenção de liberar os hebreus da opressão. No caminho, ele deve enfrentar a travessia do deserto e passar pelo Mar Vermelho.





Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...